domingo, 27 de setembro de 2009

Polarização

Morando num país polarizado radicalmente entre conservadores e liberais desde a Guerra Civil americana, me preocupa o tom igual de radicalização no meio gay brasileiro. De um lado, as bees-cabeça, preocupadas com a ampliação de nossos (poucos) direitos, com a ditadura da moda-consumo, com a superficialização de tudo que existe. De outro, as party-bees, gente que trabalha (muito) honestamente, sofre os diabos e, no fim de semana, só quer se divertir. Ou é alienada mesmo e acha que tudo que se refere a "política" é "uma coisa muito chata e/ou careta". Quem vai trazer a bala?

Nos blogs e sites gays brasileiros que leio de quando em quando, a raiva de um grupo pelo outro é evidente. E vai ficando mais extrema e maior à medida em que, entra governo, sai governo, nada muda em termos de direitos. Ou a porradaria em qualquer manifestação homoafetiva vai se espalhando pelo país. Por conta disso, aumenta a pressão sobre o party-people para que gastem menos tempo no Gaydar e na academia e mais no protesto boca-a-boca e no lobby. Gente chata, horrorosa, velha, que não pega ninguém, respondem as bonitas. E assim um ataca o outro em blogs, sites, fóruns de discussão, etc.

Depois de anos de janela (adoro essa expressão que minha mãe usava sempre em auto-referências hilárias), dá para perceber que 60% dos gays, pelo menos, transitam na boa entre um lado e outro destes extremos. Não concordo com muitos que acham que a maioria das bees brasileiras quer mesmo é piroca ou deixa de comer a semana inteira para poder torrar R$ 25 na buáti (eu adoooooro uma buáti).

Todos sabemos o quanto custa e o quanto dói ser diferente num mundo de comercial de margarina. Ao contrário dos negros, os gays sofrem preconceito dentro de casa, o que, convenhamos, exige um escudo protetor de auto-estima enorme. Mas essa hipersensibilidade cultivada desde pequeno faz dos gays pessoas especiais. É claro que existem bees burras e mongas, mas a maioria (e eu olho meus próprios amigos, dos totalmente anônimos aos 100% celebridade) é gente antenada, divertida, irônica, ferina, inteligente e articulada. Bicha burra nasce hetero, diz o (irônico e divertido) ditado.

Todo mundo quer ser feliz, ter um peso saudável, uma aparência minimamente boa, um companheiro sensacional, um emprego no qual se sente realizado, concorrer/disputar em pé de igualdade com outros, não ser motivo de piada e um país do qual se orgulha. Às vezes isso acontece na vida da gente. Às vezes, não. Mas nossas frustrações pessoais e nossos desejos de mudar o mundo não podem excluir o outro como se todos fossem "gente mal comida" ou "barbies drogadas e aliendas". Na verdade, a maioria está entre um e outro ponto.

Então me incomoda um pouco que os realmente ponderados não se manifestem nas dezenas de excelentes blogs brasileiros e sites tipo o Mix dando uma perspectiva mais equilibrada às discussões. O que se vê é um xingamento, um festival de ofensas e deboches sem fim que nada acrescentam ao debate. E os anônimos, meu Deus? Anônimos são um dos efeitos colaterais mais indigestos da liberdade de expressão. Porque o sujeito se esconde por trás do anonimato para destilar veneno e atacar quem quer que seja, uma forma (acredito eu) de compensar suas frustrações, recalques, aquelas coisas.

Então fica aqui meu apelo aos ponderados: opinem. Na boa. Vamos transformar a blogosfera gay num debate de idéias de fato. Menos rancor e mais opinião e crítica construtiva. Menos raiva e mais análise. Tem muita bee jovem por aí sem saber o que fazer e o debate livre na rede pode clarear bastante as idéias. Ou asssustar de vez e replicar o preconceito entre os próprios gays. É uma questão de escolha.

7 comentarios:

Nícholas Vasconcelos disse...

Caralho! Voce como sempre sabe atingir o medula no ponto exato!O que mais me incomoda quando o assunto é "feias" versus "bonitas" é que os dois grupos insistem em repetir os preconceitos de que eles mesmo são vitimas! Como alguem que é excluido pode querer excluir?!
Ah...anonimato é pra gente fraca!

Carlos disse...

Finalmente uma reflexão equilibrada... sempre achei que os opostos não permitem discussões nem aceitam opimiões alheias, ficam burros, herméticos...o segredo de convivência pacífica é o respeito, esse mesmo que cobramos da sociedade e não colocamos em prática.

Câmera de Vigilância disse...

Gilberto, sempre gosto muito dos seus textos. E como o que você está propondo é um debate, um verdadeiro debate, eu estendo as minhas mãos vazias e pergunto: será que o debate livre na rede pode mesmo clarear as ideias? Você acha? Como? Por quê?

Câmera de Vigilância disse...

Outra coisa: eu entrei há pouco lá no "No Império" e na barra superior estava escrito seu sobrenome errado, "blog de Gilberto Socofield". Socofield? Um abraço.

Anônimo disse...

Eu sempre manifesto minhas opiniões nos blogs, de maneira anônima, por não conhecer pessoalmente seus autores. E nunca por covardia, aliás, no dia que eu lê algo, discordar, e quiser de alguma forma agredir!?!, aí eu vou botar minha foto, nome e sobrenome.
Adoro os blogs gays(?). Eles contribuiram para que pudesse me assumir para minha família, e continuam contribuindo para trilhar meu caminho, conforme foi dito no post.

Edgard disse...

Ótima reflexão!

Gilberto Scofield Jr. disse...

Oi Câmera, já falei com o povo do online para ver o nome no blog. Eu vejo Scofield normalmente, mas pedi para checarem. Sobre debate, acho totalmente possível, sim. O processo de adotar uma postura sobre determinado assunto é decorrente do conhecimento de diferentes pontos de vista, da comparação destes pontos de vista com nosso princípios e do que resulta daí. Mas como as pessoas podem ter acesso a diferentes pontos de vista se só o que se vê são insultos raivosos e recalques pessoais? Se a gente conseguir passar por este infantilismo raivoso, o debate é totalmente possível.