Polarização
Morando num país polarizado radicalmente entre conservadores e liberais desde a Guerra Civil americana, me preocupa o tom igual de radicalização no meio gay brasileiro. De um lado, as bees-cabeça, preocupadas com a ampliação de nossos (poucos) direitos, com a ditadura da moda-consumo, com a superficialização de tudo que existe. De outro, as party-bees, gente que trabalha (muito) honestamente, sofre os diabos e, no fim de semana, só quer se divertir. Ou é alienada mesmo e acha que tudo que se refere a "política" é "uma coisa muito chata e/ou careta". Quem vai trazer a bala?
Nos blogs e sites gays brasileiros que leio de quando em quando, a raiva de um grupo pelo outro é evidente. E vai ficando mais extrema e maior à medida em que, entra governo, sai governo, nada muda em termos de direitos. Ou a porradaria em qualquer manifestação homoafetiva vai se espalhando pelo país. Por conta disso, aumenta a pressão sobre o party-people para que gastem menos tempo no Gaydar e na academia e mais no protesto boca-a-boca e no lobby. Gente chata, horrorosa, velha, que não pega ninguém, respondem as bonitas. E assim um ataca o outro em blogs, sites, fóruns de discussão, etc.
Depois de anos de janela (adoro essa expressão que minha mãe usava sempre em auto-referências hilárias), dá para perceber que 60% dos gays, pelo menos, transitam na boa entre um lado e outro destes extremos. Não concordo com muitos que acham que a maioria das bees brasileiras quer mesmo é piroca ou deixa de comer a semana inteira para poder torrar R$ 25 na buáti (eu adoooooro uma buáti).
Todos sabemos o quanto custa e o quanto dói ser diferente num mundo de comercial de margarina. Ao contrário dos negros, os gays sofrem preconceito dentro de casa, o que, convenhamos, exige um escudo protetor de auto-estima enorme. Mas essa hipersensibilidade cultivada desde pequeno faz dos gays pessoas especiais. É claro que existem bees burras e mongas, mas a maioria (e eu olho meus próprios amigos, dos totalmente anônimos aos 100% celebridade) é gente antenada, divertida, irônica, ferina, inteligente e articulada. Bicha burra nasce hetero, diz o (irônico e divertido) ditado.
Todo mundo quer ser feliz, ter um peso saudável, uma aparência minimamente boa, um companheiro sensacional, um emprego no qual se sente realizado, concorrer/disputar em pé de igualdade com outros, não ser motivo de piada e um país do qual se orgulha. Às vezes isso acontece na vida da gente. Às vezes, não. Mas nossas frustrações pessoais e nossos desejos de mudar o mundo não podem excluir o outro como se todos fossem "gente mal comida" ou "barbies drogadas e aliendas". Na verdade, a maioria está entre um e outro ponto.
Então me incomoda um pouco que os realmente ponderados não se manifestem nas dezenas de excelentes blogs brasileiros e sites tipo o Mix dando uma perspectiva mais equilibrada às discussões. O que se vê é um xingamento, um festival de ofensas e deboches sem fim que nada acrescentam ao debate. E os anônimos, meu Deus? Anônimos são um dos efeitos colaterais mais indigestos da liberdade de expressão. Porque o sujeito se esconde por trás do anonimato para destilar veneno e atacar quem quer que seja, uma forma (acredito eu) de compensar suas frustrações, recalques, aquelas coisas.
Então fica aqui meu apelo aos ponderados: opinem. Na boa. Vamos transformar a blogosfera gay num debate de idéias de fato. Menos rancor e mais opinião e crítica construtiva. Menos raiva e mais análise. Tem muita bee jovem por aí sem saber o que fazer e o debate livre na rede pode clarear bastante as idéias. Ou asssustar de vez e replicar o preconceito entre os próprios gays. É uma questão de escolha.

7 comentarios:
Caralho! Voce como sempre sabe atingir o medula no ponto exato!O que mais me incomoda quando o assunto é "feias" versus "bonitas" é que os dois grupos insistem em repetir os preconceitos de que eles mesmo são vitimas! Como alguem que é excluido pode querer excluir?!
Ah...anonimato é pra gente fraca!
Finalmente uma reflexão equilibrada... sempre achei que os opostos não permitem discussões nem aceitam opimiões alheias, ficam burros, herméticos...o segredo de convivência pacífica é o respeito, esse mesmo que cobramos da sociedade e não colocamos em prática.
Gilberto, sempre gosto muito dos seus textos. E como o que você está propondo é um debate, um verdadeiro debate, eu estendo as minhas mãos vazias e pergunto: será que o debate livre na rede pode mesmo clarear as ideias? Você acha? Como? Por quê?
Outra coisa: eu entrei há pouco lá no "No Império" e na barra superior estava escrito seu sobrenome errado, "blog de Gilberto Socofield". Socofield? Um abraço.
Eu sempre manifesto minhas opiniões nos blogs, de maneira anônima, por não conhecer pessoalmente seus autores. E nunca por covardia, aliás, no dia que eu lê algo, discordar, e quiser de alguma forma agredir!?!, aí eu vou botar minha foto, nome e sobrenome.
Adoro os blogs gays(?). Eles contribuiram para que pudesse me assumir para minha família, e continuam contribuindo para trilhar meu caminho, conforme foi dito no post.
Ótima reflexão!
Oi Câmera, já falei com o povo do online para ver o nome no blog. Eu vejo Scofield normalmente, mas pedi para checarem. Sobre debate, acho totalmente possível, sim. O processo de adotar uma postura sobre determinado assunto é decorrente do conhecimento de diferentes pontos de vista, da comparação destes pontos de vista com nosso princípios e do que resulta daí. Mas como as pessoas podem ter acesso a diferentes pontos de vista se só o que se vê são insultos raivosos e recalques pessoais? Se a gente conseguir passar por este infantilismo raivoso, o debate é totalmente possível.
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