
Com a chegada da Parada Gay, acontece de se ler/ouvir alguns gays não concordando com o termo "orgulho gay". Talvez tenha passado despercebido que a palavra orgulho é usada como o contrário de vergonha.
É como se fosse uma passeata para dizer que "não tenho vergonha de ser gay".
Afinal, cultura, social e emocionalmente o gay sempre foi induzido a se sentir inferior, a ter vergonha da sua sexualidade e de si mesmo.
Apesar das controvérsias que rondam a parada - se ela é eficaz, que só tem "gente feia", que não representa todos os gays, que o comportamento "entusiasmado" agride os heteros, só tem confusão e assaltos etc -, ela se faz importante quando repercute, em uníssono e com peso e pungência, as questões com as quais todo gay lida.
Alguns podem argumentar que não precisam de paradas ou mesmo sair do armário para ter uma vida boa ou mesmo uma auto-estima boa. Não se discute isto, afinal, as ferramentas para se blindar na vida com uma auto-estima elevada são individuais, cada um tem sua história, sua trajetória.
Porém, quando se vive num mundo cheio de fobias, em que algumas pessoas precisam (e têm prazer em) julgar e tentar banir aqueles com os quais se sentem incomodados, sair às ruas talvez seja - por mais que pareça inocente - um ato de amor e solidariedade.
Solidariedade com aqueles gays que a gente talvez nem conheça, e que por ventura não tenham conquistado ainda o privilégio que outros conquistaram de ser gay e livre - seja porque tem pai e mãe opressores, seja porque tem medo do julgamento dos amigos de colégio, seja porque tem uma homofobia internalizada massacrante.
Talvez se nós formos generosos e pensarmos que uma atitude hoje poderá ajudar alguém algum dia, não olharemos a parada somente como algo que deveria nos trazer algo de imediato, mas a veremos como uma de nossas contribuições para o futuro.
4 comentarios:
Boa reflexão!
Lindo... concordo em todos os sentidos!
Texto que deu gosto de ler =D
Continuo preferindo bem mais o termo CONSCIÊNCIA do que Orgulho, em relação a algo que não é um mérito ou conquista de alguém , mas um acaso, uma condição da qual vc faz parte independente de sua vontade, empenho ou talento.
E sim, entendo que neste caso a palavra orgulho está sendo usada como o contrário de vergonha, mas essa é uma interpretação delicada. A escolha da expressão mais adequada deve ser feita pelos seus sinônimos e não pelos antônimos. Sem nem precisar revirar Aurélios, sabemos que orgulho é associado a dignidade mas, ainda mais comumente, a conceito elevado ou exagerado de si próprio e soberba... Já tivemos episódios em nossa categoria em que a busca por igualdade entrou no terreno dos privilégios.
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