Todo produto ou serviço, pelos olhos do marketing, conta com um elemento inerente também aos seres humanos: vida. Tal qual para nós, os produtos e serviços, por mais inovadores e originais, passam por período que vão, resumidamente, do auge ao declínio, e cabe aos marqueteiros de plantão construir caminhos para reposiciona-los no mercado, muitas vezes remodelando seu formato e função.
Se tomarmos como exemplo para a noite gay, mais especificamente, veremos que a regra é a mesma. Falo isto porque decidi fazer uma análise simples e, ao mesmo tempo, complexa, sobre a The Week e seus novos passos, agora que a filial carioca já é uma realidade.
Segundo os comentários, faltam acertos aqui e ali, criticas foram feitas, mas no geral os elogios e toda a celebração superou, sem dúvida, os erros e deslizes iniciais, típicos de inauguração.
Então vamos começar por parte:
Quando a The Week abriu suas portas em São Paulo há quase 3 anos atrás, muitos criticaram... chegaram a apelidar a casa de buffet, numa referencia a antiga ocupação do galpão. As paredes eram brancas, o espaço era enorme, se promovia como uma inovação no mercado, mas não era o que se via naquele momento. Poucos levantaram a voz e previram o sucesso da casa.
Passados algumas pouquíssimas semanas, Andre Almada e sua equipe conseguiram ganhar a simpatia de centenas de narizes virados e promoveram a falência da então decadente Level, que por simples falta de atenção de seus proprietários, apostando no fracasso de seu recém-inaugurado adversário, fechou as portas antes mesmo de tentar se superar. E o que parecia ser um negócio de uma primavera, fez verão.
A The Week fez muitos verões e já se prepara para mais um... na próxima primavera comemora 3 anos de funcionamento.
Depois dela, muitos tentaram se firmar e não conseguiram, pois não foram capazes de perceber as nuances do sucesso do mega clube paulistano: fazer sempre o melhor e aos poucos. Acredito que é com essa mesma filosofia que a The Week Rio irá se posicionar. Mas vejo um perigo no caminho e um desafio de Hércules para os donos do clube.
Três anos, para noite gay do segmento que o clube trabalha, é maturidade e, ao mesmo tempo em que significa respeito, reconhecimento e qualidade, pode também trazer problemas. Alguns já passaram e foram perfeitamente contornados no primeiro semestre deste ano, mas acho que o pior deles ainda está por vir e parece que vem, por enquanto, como um vilão silencioso.
Antes de começar isto, quero deixar claro aqui, para evitar mal-entendidos que, eu não sou vip do clube e não tenho nada contra a The Week, nada contra nenhum clube ou produtor de São Paulo ou de qualquer lugar do Brasil e acredito MESMO na capacidade empresarial de Almada e Klaus, e imagino que existam outras pessoas importantes e influentes por traz deste empreendimento no Rio. Pessoas que sabem o que estão fazendo e entendem de administração e marketing ao ponto de levantar algo tão grandioso a realização. Contudo, como um estudioso de marketing e observador do mundo, não posso deixar de perceber e buscar entender os acontecimentos que me interessam, por mais que não me interfiram diretamente.
A abertura da The Week no Rio, eu acho um empreendimento de altíssimo risco, por vários pontos:
O Rio de Janeiro recebe turistas o ano inteiro, mas aqueles que se destinam a noite carioca é relevante apenas em período de férias nos Estados Unidos e durante os 3 meses de verão. E, assim como o ano inteiro, o verão é movido pelo dia e não pela noite carioca.
O carioca não tem a noite como primordial em sua vida e a grande parcela se dedica a uma vida mais diurna, saindo para baladas noturnas ocasionalmente, e assim buscando muitas vezes eventos com áreas aberta, veja o sucesso do 00 há anos. Ok, ok. Podem dizer que tem LeBoy, Cine Ideal, Fosfobox, Dama de Ferro e outros espaços, mas a gente está falando de um público gay especifico e com postura bem definida.
Precisamos entender que o percentual de gays ativamente ligados aos clubes é uma fatia muito pequena dos ditos 10% dos gays presentes em nossa sociedade. Lembrem-se que a maioria dos gays não curtem noite e, ainda assim entre os que gostam, tem os diversos estilos musicais, os diferentes perfis e todos estes dividem o mesmo bolo. A parcela fiel a jogação em clubes ou festas noturnas é ainda menor. Isto no Rio se afunila ainda mais, porque o carioca opta por pagar preços bem baixos.
Acho que o André e equipe sabem disto e foram inteligentes em inaugurar em esquema soft-opening, usar apenas parte da casa como circulação, limitando a capacidade a 2000 pessoas e afirmar que somente a medida do retorno apresentarão melhorias. Bem positiva a postura, tal como foi na abertura da matriz.
Mas qual será o público que lotará a The Week Rio todos os sábados?
Sim, isso ainda é uma incógnita. Eu tenho duas apostas:
1 - ou o clube carioca se tornará uma espécie de Pachá (guardando proporções, obviamente), onde todas as tribos se misturam (bem próximo ao perfil do clube 00), cobrando-se mais caro e garantindo o nível de São Paulo, enchendo sua área vip com personalidades e wanna-bes (no Rio fica mais fácil, afinal é lá que está a maior rede de televisão do Brasil);
2- ou abaixa o preço para regular e competir na medida com casas como Cine Ideal e Le Boy, passando a disputar o mesmo público.
Sendo o primeiro caso, o clube corre o sério risco de experimentar no Rio a crise da lista e das filas vips que tanto atormentaram a vida do Almada alguns meses atrás. Vips e pseudo-vips (aqueles que constam na lista porque a casa precisa de movimento no inicio) misturados e se digladiando na fila especial da entrada do clube. Pagantes mesmo, muito poucos, pois todos sabem que a grande massa carioca não banca, ainda que com cartão Gold, uma entrada de R$30,00 por final de semana.
No caso de competir com o Cine Ideal, a coisa pode ser ainda mais complicada, pois os requintados vips não querem estar no mesmo espaço que a ralé suburbana. E falo isso sem a menor dor na consciência, pois sou suburbano e sei muito bem como é essa coisa no Rio e em São Paulo. Os feios e pouco afortunados (ou melhor, menos influentes) não merecem estar no mesmo ambiente que os badalados e belos. Essa é a eterna briga.
Mas, sem dúvida, a casa ao custo de R$20 e com um desconto aqui e ali conseguiria abalar e muito o Cine Ideal e até mesmo a Le Boy, embora o nível do seu público caísse se comparado a matriz.
Ok, você vai me lembrar que o Rio é uma cidade turística, mas eu ressalvo que turista de peso mesmo no Rio não vem em massa para a cidade fora da temporada, os que vêm são poucos. Entretanto o maior dos desafios de Almada e companhia não está em definir o preço e o público de seu clube; e sim, vencer a difícil tarefa de conseguir ter sucesso em todas as casas, isto porque o clã já anunciou que no verão também se instala com melhor infra-estrutura em Florianópolis, formando assim um triângulo que tem tudo para se tornar um grande império ou ruir. Desculpa, é uma análise de mercado, portanto todos os lados precisam ser vistos.
Posso estar completamente enganado, mas o que Almada, seus sócios e assessores não parecem ter previsto foi que eles já são (e serão mais ainda!) concorrentes de si mesmos, e se tratando de Brasil, isto pode ser um perigo muito sério.
Raciocinem comigo!
Tudo bem, os empresários já ganharam um nível de experiência e qualidade capaz de controlar tudo a distancia. A The Week SP, por exemplo, podemos dizer que tem vida própria. E, no mais, o verdadeiro comandante é aquele que sabe selecionar sua equipe, e isto eu não tenho dúvida que os donos do clube têm talento de sobra. Podem montar equipes muito bem preparadas e experientes para atuarem com perfeição nas 3 casas.
Três The Week´s significam aquecimento de mercado para diversas áreas técnicas e artísticas, mais emprego para dj nacionais e a possibilidade de mais nomes estrangeiros nos line-ups das festas; três The Week´s também significam dividir público. Sério!
Lembram do que disse lá em cima sobre termos apenas um pequeno grupo que mantém o cotidiano da noite gay? é por isso que há épocas do ano que lugares que normalmente vivem cheios, verificam queda de público e outros que vivem meia-boca, lotam. Fidelidade, circulação, falta de novidade e dinheiro são alguns dos fatores que equilibram ou tiram essa balança do prumo.
Pensem! Quem é o público da The Week São Paulo? Vamos usar um calculo por percentuais baseados em chute e observação geral, ok?
45% habitantes de SP.
30% de fora do Estado.
10% do interior de SP.
5% de fora do país.
Percentuais de um final de semana sem festa. E de onde a maioria de fora do estado vem? Rio, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba. Correto?
Vamos imaginar que com a The Week Rio, os cariocas que moram no Rio e nas proximidades, até por se tratar de novidade, deixem de vir a São Paulo, como de costume, assim como o povo de Belo Horizonte, que todos sabem preferem muito mais o calor da Cidade Maravilhosa ao cinza da selva de pedra paulistana. Então ai já perdem, por baixo, 15% dos tais “fora do Estado”. Entendido?
Ok. Pouca diferença. Quem sabe mesmo assim, com a possibilidade de uma ponte aérea aqui, outra ali, as duas casas fiquem cheias, não lotadas, mas dêem o lucro esperado, ou mesmo um pouco acima do esperado...
Mas se pensarmos em grandes festas? Qual das The Week´s sairá perdendo. Estamos pensando somente antes do verão, ok. Vamos lá!
Que datas do ano, por conhecimento, a TWSP lota de verdade? Esqueça o Carnaval.
Parada Gay em junho, Aniversário da casa em setembro, mais umas 2 datas perdidas no meio do ano com presença de artistas gringos.
Como ficaria a TWRJ neste dias?
Por exemplo, você ficaria no Rio durante a Parada Gay de São Paulo, sabendo que tem uma semana mega popular e cheia de gente na capital paulista? Acho que nem os queridos mineiros suportariam esta tentação.
Então... como ficaria a TWRJ? Que público? Que festa? e que preços seriam admitidos para manter o mínimo que a casa necessita para valer abrir as portas neste período? Ou o clube cogita manter-se fechado nestas datas onde ele mesmo se faz concorrência?
Agora, sem nem entrar na questão inversa, ou seja, quando as datas e festas importantes forem no Rio, vamos direto pensar no verão:
São Paulo tem normalmente um ano novo bacana na TW, mas é o carnaval super popular que movimenta a casa nesta estação do ano. O Rio não, nem Floripa.
É no verão que as duas cidades dividem os gays. Deixando de lados os seguintes gays: os que saem de férias para outros estados e exterior, e aquele grupo grande que está no Rio ou em Floripa, mas nem quer ouvir falar em balada, podendo até ir ocasionalmente em uma, só por ir, porém quer mesmo distancia de festas lotadas, fumaça e empurra-empurra... tirando todos estes sobram alguns cariocas, mineiros, turistas nacionais e estrangeiros, estes últimos são a maioria dos freqüentadores fiéis das noitadas nas duas cidades litorâneas.
Não vamos entrar nem na questão das festas paralelas, de outros clubes e eventos que ocorrem no verão e algumas vezes tiram uns e outros do circuitão.
Mas e ai? Como ficamos? Qual das duas TW´s está com as contas pagas no final de tudo e terá mais lucro: Floripa ou Rio? Ou ambas?
Pois bem, acredito sim e muito no sucesso dos clubes, mas acho que não somos e nem temos a cultura norte-americana... aliás, pelo que tenho noticias, até mesmo nos EUA alguns clubes que tinham mais de 2 filiais, ou encerraram suas atividades, ou voltaram ao inicio, reduzindo custos centrando na matriz ou na filial mais lucrativa.
Por isso que penso que é muito positivo termos “nosso” mega clube espalhado por diversas cidades do Brasil, mas acho que este projeto serve muito mais a imagem do Almada e a sua marca. Entretanto, temos que aguardar e ver o que o tempo nos apresenta, pois ninguém entra num jogo apostando na sua derrota, e para isso existe toda a fase de planejamento e tenho certeza que ele tem tudo minuciosamente pensado e planejado para ser no mínimo a melhor experiência empresarial para o mercado gay que este país já viu.
Boa sorte!